Reforço do céu: Djalma Santos, um senhor lateral

Confesso que fiquei um pouco na dúvida sobre estrear o Zarpando Ideias com esse post. Afinal, o futebol perde muito com a partida de Djalma Santos, que às 19h30 do dia 23 de julho de 2013, uma terça-feira, deixou esta Terra para reforçar o time brasileiro no céu.

Essa indecisão se deu por um motivo: uma entrevista que fiz com ele no ano passado para meu TCC sobre o ex-ponta-esquerda Pepe, que atuou no Santos no mesmo período em que Djalma Santos jogou futebol na Portuguesa e no Palmeiras. O conteúdo desse bate-bola com ele não é algo de que eu possa me orgulhar imensamente, apesar do riquíssimo personagem que tive por breves 10 minutos. Mas a Renata me convenceu rapidamente com a seguinte pergunta: “quantos jornalistas têm uma entrevista com ele?” Bom, ela tem razão. Acredito que não são muitos.

Não é preciso falar muito do que representa Djalma Santos para o futebol. Considerado por muitos não só o melhor lateral direito brasileiro, mas o melhor da história. Ser o melhor em qualquer posição na seleção do Brasil é um feito e tanto – e na direita jogaram Carlos Alberto Torres, o Capita, Leandro e Cafu, três ótimos laterais.

Djalma é bicampeão do mundo em 1958 e 1962. Participou das Copas de 1954 e 1966. Foi o único brasileiro presente na partida entre Inglaterra e Seleção da Fifa, em 1963, ao lado de Yashin, Eusébio, Di Stéfano, Puskás, Gento e Uwe Seeler.

Além disso, conquistou diversos títulos e fez parte de duas grandes equipes do futebol brasileiro: a Portuguesa da década de 1950 e o Palmeiras da década de 1960, ambos considerados como as melhores formações das respectivas agremiações.

Mas voltando à entrevista: curiosamente, é a única das entrevistas que fiz para o trabalho de conclusão de curso que não tem data. Na rádio, acabei pegando o hábito de colocar data em absolutamente tudo, mas, por algum motivo, essa não tem. Meu Google Drive me informa que ela foi modificada pela última vez no dia 21 de setembro de 2012, então considero que essa é a data dela.

Recordo que peguei o número do Djalma Santos com o folclórico produtor da Rádio Globo Belezinha, dono de uma vasta e conservada agenda de contatos. Alguns números não eram mais dele e outros já não existiam. Tentei o último deles, um celular. E deu certo.

Depois da ansiedade inicial de estar falando com um jogador histórico, propus o tema e ele aceitou falar sobre Pepe, seu maior adversário. Falou dos confrontos, da amizade que tinham, que conversavam sobre a família quando a bola estava do outro lado do campo. Rememorou o estilo de jogo, de um ponta que descia em velocidade e batia forte com o pé esquerdo. E que era difícil marcá-lo.

Ainda para esse trabalho, o jornalista Alberto Helena Júnior me concedeu uma entrevista sobre o mesmo assunto, e falou sobre os duelos entre os dois. Djalma pode ser considerado uma exceção para a época – não só pelo grande futebol, mas por um simples fato: era destro e jogava de lateral direito. Percebendo minha surpresa, ele me informou que se costumava jogar com o “pé trocado”, ou seja, os laterais destros atuavam pela esquerda e os canhotos, pela direita. Fazia-se isso para facilitar a marcação caso o ponta cortasse para dentro e tentasse arrematar para o gol.

Claro que aquele que poderia falar melhor das qualidades de Djalma era seu adversário, Pepe. Na última entrevista que fiz com ele, perguntei sobre seus rivais. Só um nome veio à cabeça. “Destaco o Djalma Santos, que travou grandes duelos comigo, sempre na maior lealdade. Acho que ele nunca deu um carrinho na vida dele”, brincou.

Pepe exagerou. Claro que Djalma Santos deu carrinhos na carreira dele. Fez faltas também. Mas só um carrinho aparece na seleção de imagens que achei no YouTube da final da Copa de 1958.

Imaginem: final de Copa do Mundo, e tivemos um lateral que deu só um carrinho durante uma das partidas mais importantes para a seleção brasileira. “Classe”, diria o perfil estatístico OptaJoão.

Não é preciso dizer mais nada. Djalma foi um senhor jogador de futebol.