Especialistas em tudo fazem bem ao jornalismo?

Sempre que alguma questão polêmica surge ou que alguma derrota atinge times ou seleções, algumas pessoas aproveitam o momentum para destilar todo seu “conhecimento” sobre os respectivos assuntos, vomitando pelos dedos e cagando regras. O fato da vez da noite da terça-feira foi a eliminação da seleção masculina de basquete na Copa América, que dá vaga para o Mundial da modalidade na Espanha.

Seleção Basquete

Nem mesmo o último arremesso tinha caído na cesta e já apareciam os paladinos da justiça no Twitter reclamando do técnico, da confederação e dos jogadores que escolheram não disputar a competição e deram preferência para a NBA. Toda essa vociferação de gente que, assim como eu, não sabe as diferenças nas regras do basquete Fiba para o basquete NBA. Pessoas que nunca na vida assistiram a uma partida de basquete inteira. Gente que não acompanha os torneios e não sabe quem são os jogadores. A mesmíssima coisa acontece a cada quatro anos com o futebol feminino.

Quero deixar bem claro aqui que dar sua opinião é uma coisa, mas bancar a autoridade no assunto é outra totalmente diferente. Escrever “realmente, a seleção jogou muito mal e deu o maior vexame contra a Jamaica. Imagine, perder para a Jamaica em algo que não seja consumo de maconha ou provas de velocidade no atletismo” é só preconceituoso, mas é sua opinião. Agora, dar uma de sabichão e dizer “nossa, mas esse Magnano, hein? Que técnico fraco, sem pulso. Não consegue motivar os jogadores, que pareciam um bando em quadra, sem formação tática.” Peraí, você sabe algo de tática de basquete? Marcação por zona ou individual? Já viu um treino de basquete? Então segure a empolgação, porque você está falando sem o menor conhecimento do assunto. Assim até eu falo de golfe: “Mas esse Tiger Woods, hein? Umas tacadas sem equilíbrio nenhum. Três acima do par? Pfff, está acabado…”

Outro dia, alguém disse que o atacante Aubameyang, francês que joga pela seleção do Gabão, fez o que era de se esperar na estreia dele pelo Borussia Dortmund pelo campeonato alemão: três gols. E que não era uma surpresa para quem o acompanhava no Saint-Etienne, seu ex-time. Ah, peraí… Sujeito nunca disse uma palavra sequer sobre o jogador. O cara estourou na estreia, sim. Surpreendeu positivamente, sim. Mas… calma! Uma rápida olhada na artilharia do campeonato mostra que ele não marcou mais nenhum gol depois da estreia. Na data deste post, o campeonato alemão estava na 4ª rodada. A média é excelente sim, mas fazer um estardalhaço, só faltando dizer que era o “Pelé gabonês”, é demais. Vamos lembrar que até Zé Eduardo começou artilheiro no Santos. Depois…

Novamente: não é querer impedir ninguém de falar de nada, mas acredito que essa atitude de sabe-tudo, de especialista em qualquer coisa faz um mal danado ao jornalismo. Precisamos de pessoas especializadas naquilo que fazem para que tenhamos matérias realmente boas não só nos esportes, mas também em outros setores como economia e política. Já imaginou o Tiago Leifert numa conversa com o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso para falar do Plano Real? Então calcule o nível de uma conversa entre Merval Pereira e Alex, do Coritiba.

Ambas resultariam no desastre total e absoluto (a segunda menos que a primeira, certamente). Nenhuma informação concreta e nenhum questionamento sairia disso. Se o entrevistado mentisse, o entrevistador jamais saberia confrontar porque não é do meio e provavelmente nem perceberia a mentira deslavada no ato. Claro que uma pesquisa prévia ajuda, e que, se preparados, eles poderiam fazer a tal entrevista. Mas, convenhamos, isso é bem diferente de ficar chiando no Twitter como se soubesse todos os males que afligem o basquete nacional. O pior é que muitos são jornalistas e soltam pérolas de dar vergonha depois. Não é assim que as coisas se resolvem. Eu aposto que a confederação tem muitos problemas, que o técnico tem seus defeitos, mas não ouso falar nada pelo simples fato de não acompanhar o esporte além de uma partida ou outra da NBA.

O pior é que os jornalistas (nós) podem tentar mudar a situação fazendo matéria sobre os males do basquete, as condições das quadras, da preparação dos atletas, das possíveis falcatruas da confederação… Mas isso ninguém quer. Quando ganha, está tudo bem, tudo é maravilhoso: temos reposição para os jogadores da NBA, o técnico é um cara trabalhador e a confederação investiu. O importante é chiar no Twitter só quando perde para parecer antenado e por dentro de tudo, provendo um falso conhecimento ao leitor. Isso não leva a nada e não gera conhecimento ou solução alguma para o esporte (ou o assunto) em questão. É só pavonice.

E o jornalismo?

A cada dia que passa, está mais difícil ver o que acontece e não dizer nada.

O jornalismo brasileiro começou perdendo na quinta-feira, dia 1º de agosto de 2013. Dia triste. Isso porque a equipe da Bradesco Esportes FM – do Grupo Bandeirantes – foi demitida um dia antes do comentarista Mauro Beting, da editora Adriana Cury e do locutor Walker Blaz terem sido dispensados da Rádio Bandeirantes por “cortes de gastos”. Não só por isso – nesse mesmo dia, a Editora Abril abriu mão de 150 funcionários e encerrou quatro títulos: Alfa, Lola, Gloss e Bravo!.

No mesmo dia em que tudo isso aconteceu, alguém tentou ser o ~engraçadão da turma~ e, além de falhar miseravelmente, matou um pouquinho mais o ofício do jornalismo no Brasil.

A meu ver, o caso maiMicrofones preocupante é o da equipe da Bradesco Esportes FM. A rádio é muito nova – foi fundada em maio de 2012, ou seja, tem pouco mais de um ano – e já destruiu tudo aquilo que pregou como objetivo, os quais vocês podem ler aqui (grifo especial para o parágrafo-lenda sobre a Copa e as Olimpíadas). É triste ver que algo tão recente seja desfeito dessa forma. É complicado acreditar que os envolvidos tenham tido a expectativa do resultado rápido em um veículo como o rádio, que demora para ter seu público formado, sua rede de anunciantes feita, e por aí vai. Que tipo de planejamento é esse?

O caso da Editora Abril é algo que já se esperava que acontecesse – há algumas semanas, surgiram boatos de que a empresa tolheria dez títulos, e não quatro. Se com esses quatro já foram 150, imaginem com dez…

Nunca nem peguei na mão a Lola e a Gloss, e, portanto, seria irresponsável falar qualquer coisa sobre elas. Mas sobre Alfa, posso dizer algumas palavras. (Sobre a Bravo!: Ricardo Viel, um ex-colega de trabalho, assina a última capa da revista. É uma reportagem sobre José Saramago. Desejo sorte e espero que ele encontre outro espaço para escrever sobre literatura!)

Durante algum tempo, fui leitor da Alfa, criada em setembro de 2010. Era uma revista masculina bacana, que não apelava para mulher pelada (tinha uma seção de gostosas, é verdade), mas que também não se encaixava no nicho “saiba dez maneiras de obter o tanquinho de aço enquanto leva sua mulher à loucura na cama”. Ocupava um espaço, que, até onde sei, não era preenchido por nenhuma outra. A GQ, da Editora Globo-Condé Nast, só veio um ano depois.

As matérias da Alfa até que eram boas. Eles fizeram uma entrevista bacana com o Ronaldo em uma determinada edição. Pelo que lembro, existiam anunciantes, e bons – alguns eram marcas de roupas, muitas da quais caras. Mas era exatamente esse o público da revista: homens, com dinheiro, que queriam aproveitar a vida de outra forma. Sinceramente não entendo o motivo de acabar dessa forma. Pondero se a Abril é nova no mercado ou algo do tipo, pois ela bem sabe que até a Veja, que é a que mais vende hoje, operou no vermelho durante bastante tempo. Prefiro não comentar a declaração do presidente da Abril, Fábio Colletti Barbosa. Deixo-vos com este tweet:

Mas o que mais me embrulhou o estômago foi o corte de Mauro Beting da Rádio Bandeirantes. Provavelmente até o amigo que não gosta de futebol sabe quem é Mauro Beting – um cara que conseguiu levar para a TV aberta um comentário inteligente, com certa dose de humor e poeticidade e que não fica em cima do muro. Isso é extremamente complicado.

Para não me estender muito, quero lembrar só uma coisa. O pai de Mauro Beting, Joelmir Beting, baita jornalista, morreu ano passado, na madrugada do dia 29 de novembro. Ele já estava internado há um mês no Hospital Albert Einstein, em São Paulo, se tratando de uma doença autoimune, quando teve um AVC que o levou.

Quero lembrar que no dia 28 de novembro de 2012, o São Paulo enfrentava o Universidad de Chile pela Copa Sul-Americana. O resultado pouco importa, mas o comentarista da Rádio Bandeirantes naquele dia era Mauro Beting. Trabalhar com o pai em uma situação dessas não é pouca coisa, mas agora imagine você na transmissão da partida recebendo a notícia de que seu pai havia morrido.

Asseguro sem medo de errar que 99% de nós começaria a chorar compulsivamente, largaria tudo ali mesmo e sairia correndo para ir até o hospital. Em vez disso, Mauro Beting continuou lá e, ao final da transmissão, leu a seguinte carta em homenagem ao pai.

Agora eu me pergunto: com que justificativa a Rádio Bandeirantes demite um profissional como Mauro Beting, que fez o que fez, que fez o que faz até hoje? “Cortar gastos”? Esse valor é tangível? Surreal. Inacreditável. Lamentável.

O pior de tudo: conforme Flávio Gomes relata no seu texto, o filho do Mauro disse que “era o Neto ou meu pai”. Is this real life? Complicado. Mais uma vez, aspas para o Flávio: “A empresa ficou com Neto, ex-jogador, que nos últimos anos se especializou em dizer “baita”. Histriônico e engraçado, ele é legal no ar. E fora dele também, um cara simpático. Não tem culpa de nada. Assim como permanece na emissora outro ex-jogador, Denílson, que se especializou em fazer caretas e brincar com a apresentadora que tem o dobro da altura dele.”

Com tudo isso, eu não estou dizendo que Mauro Beting deveria ter emprego vitalício lá só porque fez a homenagem ao pai ou porque ele é um ótimo e preparado comentarista. Mas a Rádio Bandeirantes tinha uma dívida moral e ética com ele. Se Mauro Beting tivesse que sair, que fosse o último a apagar a luz. Aliás, como ele fez na última jornada pela rádio, relatada por ele neste belo texto no seu blog do L!.

E é assim que a mídia cava sua própria cova. Tomo para mim a pergunta de Flávio Gomes: “e o jornalismo?”

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Atualização: durante a tarde, Neto pediu demissão ao vivo na Rádio Bandeirantes e clamou pela volta de Mauro Beting. que foi recontratado pela emissora menos de 24h depois de sua demissão. A atitude de Neto é nobre, pois ele sabe o que Mauro Beting representa para o rádio, mas ele joga um pouco para torcida no estilão “vocês pediram, então aí vai”. O que mais me intriga é Mauro Beting ter aceitado as condições da Rádio Bandeirantes e ter voltado sem exigir o mínimo: a volta também de Adriana Cury e Walker Blaz. Parece uma atitude um pouco egoísta. E os outros? Quem lutará por eles? Na minha opinião, acabou ficando feio…

Camarotti, o papa e a questão do jornalismo telefônico

Depois de assistir à entrevista (boa, na minha opinião) do repórter Gerson Camarotti com o papa Francisco no Rio de Janeiro, por coincidência vi o referido jornalista falando no Estúdio i, na GloboNews, sobre como conseguiu a façanha de entrevistar o cara que hoje comanda o que é a instituição mais antiga e também das mais influentes do mundo.

camarotti-estúdio iProvavelmente muitos colegas jornalistas se fizeram a mesma pergunta: como ele conseguiu? Invadiu o local onde o papa estava hospedado tal qual um ninja e quando a segurança percebeu já era tarde demais? Ele era um dos que desesperadamente tentava tocar Francisco enquanto ele abençoava as pessoas em cadeiras de roda na Catedral Metropolitana do Rio de Janeiro e pediu a entrevista ali? É amigo do papa? Claro que não.

Um pequeno resumo do que ele disse que mais me chamou a atenção: “Foi o investimento da GloboNews, ela apostou nisso desde o início. Apostou antes do início do conclave, viajou o Brasil para conversar com os principais nomes da Igreja, já tínhamos um bom contato com o episcopado brasileiro (…) a gente se posicionando (…).”

Grifei duas coisas neste excerto: a palavra investimento e o trecho “a gente se posicionando”. Primeiro, gostaria de dizer que não enxerguei esse agradecimento dele à GloboNews como puxassaquismo barato ao chefe, mas sim de alguém que realmente se sente valorizado pela empresa e pode retribuir esse esforço (bancando as viagens) de alguma forma (a entrevista com o papa). Qual empresa tem o dinheiro ou, sejamos honestos, a vontade de ir buscar algo cuja chance de acontecer tende ao zero? Precisamos admitir que tanto o Camarotti quanto a direção do canal tiveram os COLHÕES para dizer: vamos fazer esse negócio.

O segundo ponto que eu abordarei se refere ao trecho “a gente se posicionando”. “A gente”, ele quer dizer, ele mesmo e o produtor Fellipe Awi, que o ajudou a viajar pelo Brasil e se aproximar dos bispos, cardeais e outras fontes ligadas à Igreja Católica. Eles foram vistos. Isso é de extrema importância.

Para o amigo que não é jornalista, vale o esclarecimento: boa parte das reportagens que você lê no jornal ou na internet hoje em dia são feitas pelo telefone. (Rádio e televisão, principalmente, são feitos de outra forma: você precisa da sonora/imagem, então é mais fácil mandar a pessoa ao local.) No geral, liga-se para alguém, colhe-se algumas informações, uma ajeitada aqui e ali e pronto, está feito.

Por um lado, essa prática é boa, porque poupa tempo do repórter, do fotógrafo, do motorista. Por outro lado, essa prática é ruim porque o repórter não apura direito e acaba ficando refém do que passam, correndo o risco de dar uma informação errada. Afinal, ele não está lá. Isso vale para todos os setores: economia, esporte, tragédias, música…

Detalhes como condições climáticas, o ambiente do lugar, o que as pessoas estão sentido podem ser considerados por muitos como inúteis e nem sempre serão usados na reportagem, mas essas ocasiões também servem para angariar um relacionamento com possíveis fontes, seja para aquele momento específico (e nunca mais falará com ela ou a verá) ou para algo maior. E voltamos ao Camarotti e ao Awi. E se eles não fossem conversar pessoalmente com as fontes, eles teriam conseguido essa entrevista com o papa? E se eles ficassem só no contato telefônico com as fontes teriam ido a lugar algum? Ponho minha mão no fogo para dizer que não, não iam. De jeito nenhum.

É um processo caro, lento, demorado, que requer a paciência que nem todos têm, mas que pode ser extremamente recompensador, como foi nesse caso. Imaginem os fogos que soltaram quando veio o ok para a entrevista.

É claro que existem algumas exceções. Âncoras e comentaristas considerados importantes devem ter lá seu trânsito fácil com determinado setor, mas é o 1% que não deve ser levado em consideração, pois 99% de nós têm que percorrer o caminho das pedras.

Enfim, para finalizar este já longo post: o telefone deve ser um meio de fazer jornalismo, não ser o próprio jornalismo, reduzindo-o a uma sequência de oito ou nove números. Obviamente, em certas situações, só o telefone salva. Ninguém vai a Porto Alegre entrevistar um psicólogo do esporte para uma matéria de fim de semana.

Mas o meu ponto principal é que é preciso ver o mundo, falar com pessoas olhando nos olhos – elas sabem quem você é, se podem confiar em você para falar certas coisas. Em Brasília ocorre muito isso. É preciso, como gostam de dizer os professores universitários, “sujar os sapatos”, por o pé na rua. Ficar trancafiado na redação é um jeito mais fácil e barato, porém bem menos informativo.

E se você estava em uma caverna e não viu a entrevista do repórter Gerson Camarotti com o papa Francisco, veja aí: