Que tipo de pais e avós seremos?

Outro dia fui acometido por uma pergunta intrigante: que tipo de pai (e avô, posteriormente) serei?

Não dá para saber nada de muito concreto com 23 anos. Afinal, a não ser que você seja o Neymar, fica difícil pensar em ter um filho com essa idade, pois você está tentando se firmar no mercado de trabalho e talvez ainda tenha planos de estudar um pouco mais.

De qualquer forma, já dá para perceber que ser pai/mãe hoje será bem diferente daqui para frente do que foi no passado. Provavelmente alguns da minha geração têm pais ou avós que “conquistaram tudo na vida” – saíram de engraxates, vigias noturnos, CAMPS e carregadores de saco na estiva para ter uma vida mais confortável e “dar aos filhos aquilo que nunca teve”.

Se você tem a minha idade e está lendo esse texto, já deve ter ouvido essas duas expressões entre aspas. E você, assim como eu, sabe que elas são absolutamente verdadeiras. Tudo caiu no nosso colo – nunca precisamos parar de estudar para ajudar na renda em casa, não passamos fome, sede e frio e por aí vai. Nossos pais/avós passaram por provações que nunca passamos – mudança de país, no caso de imigrantes, moradia em lugares sem asfalto, sem energia, sem água limpa.

Essa é uma etapa da vida que moldou o caráter deles e lhes deu habilidades úteis. Nos, por outro lado, queimamos essa fase de aprendizado e experiência que só a vida em seu aspecto mais duro nos proporciona e nos tornamos verdadeiros bebês chorões. Com isso, não desenvolvemos nem a “casca de ferida” nem as skills que nossos pais/avós têm e praticam cotidianamente.

Isso se reflete em praticamente tudo: desde contestar algo no serviço a manter a casa em ordem. Eu, por exemplo, sinto que por mais que eu aperfeiçoe a técnica de dobrar roupas ou arrumar a cama, jamais chegarei ao mesmo nível de dobradura da minha mãe. Nunca ficará igual. Posso fazer o arroz com absolutamente do mesmo jeito que ela, mas asseguro que não terá o mesmo gosto.

A tomada precisa ser trocada? Outro dia, meu pai desligou a energia da casa e fez na marra. Eu procuraria no YouTube, falharia miseravelmente, olharia de novo com a ajuda do 3G do celular e tentaria novamente, provavelmente sem sucesso.

Talvez estejamos vivendo um momento de transição, no qual skills como serviços domésticos estejam ficando para trás. Boa parte da minha geração sabe mexer no computador sem maiores percalços e alguns até com alguma proficiência, mas também existe gente que dá tapa no monitor quando o micro trava e que não sabe configurar absolutamente nada. E muitos também não sabem fritar um ovo ou costurar o buraco do bolso da calça jeans. Hoje, nós devemos parecer maricas ou estúpidos para eles, e, para nós, eles chegam até a ter um pouco de graça pela ingenuidade em lidar com coisas second nature para a gente.

Assim, fico me perguntando que tipo de habilidade e que lição de vida passarei para frente. Será que, em vez de ensinar meu neto a consertar o chuveiro, ensinarei ele orgulhosamente a torrentear Os Mercenários 15? Farei com que ele aprenda como se joga Final Fantasy 32 de uma maneira aceitável? Vou mostrar, tal qual um velho rabugento, como era complicado na minha época, que tínhamos que jogar com personagens quadrados – e, ainda por cima, offline sem dominar completamente a língua do jogo? Ele entenderá o que é internet discada?

Olhando agora, parece assustador. A chance de criarmos bebês chorões e mal-acostumados piores que a gente é muito maior. Se isso realmente acontecerá, só o tempo dirá, mas disso tenho certeza: não quero estar por perto quando a conexão cair…

E você: que tipo de pai/mãe e avô/avó será?

A história do legítimo Filho da Puta

O que me chamou a atenção para este fascinante assunto foi este tweet do Ubiratan Leal:

Fui ver qual era a real, e reagi com um misto de is this real life? e uma leve descrença, aquela que habitualmente carregamos quando lemos algum artigo na Wikipédia.

Para não repetir o que está escrito no tweet em respeito ao amigo leitor, deixe-me iniciar os trabalhos: Filho da Puta não foi só um cavalo de corrida qualquer. Ele foi o cavalo de corrida do ano de 1815, quando venceu o Saint Leger Stakes, nada mais nada menos que a segunda mais antiga corrida de equinos da Grã-Bretanha, terra de pouca história no esporte. Caso não acredite, pode conferir aqui.

A competição foi fundada em 1776 e é disputada em Doncaster até hoje, só perdendo no quesito tradição para a Doncaster Gold Cup, que começou dez anos antes. Ah, ele também correu na Gold Cup e adivinhem? Ganhou em 1816. A essa altura, os adversários provavelmente pensavam que este cavalo era na verdade um unicórnio, ou talvez um pégaso com asas invisíveis. Irritados, eles resolveram fazer um “trabalho” para o pobre Filho da Puta.

Ele teve uma lesão na perna, o que abreviou sua vitoriosa carreira. Depois disso, porém, as coisas melhoraram. Como não podia mais correr, ele foi aposentado e virou um verdadeiro garanhão, sendo utilizado somente para fins de procriação com as éguas que lhe dariam uma boa prole.

Antes de encerrar sua gloriosa vida, Filho da Puta ainda foi o leading sire da Grã-Bretanha e Irlanda em 1828. Esse prêmio é dado ao cavalo cuja descendência conquistasse mais títulos em determinado ano. Moral da história: os potrinhos eram uns legítimos Filhos das Putas.

Bom, agora que você sabe o background no Filho da Puta não vai se sentir tão incomodado assim quando aquele amigo engraçadão te chamar por esse nome, vai? Na realidade ele está com inveja porque você é um esportista campeão e te considera digno de passar seus genes adiante com diversas fêmeas. Nada mal, hein?