A TV pública cumpre seu papel no Brasil?

Carolina Matos é jornalista, professora universitária e doutora em Mídia e Comunicação pela Universidade de Londres. Ela está lançando o livro “Mídia e Política na América Latina”, que traz uma discussão sobre o papel das estruturas de mídia pública. Para analisar o caso, a autora compara como essa dinâmica se desenvolveu na Europa, principalmente levando em conta a BBC, com a situação brasileira. “A TV pública não foi construída para atender o público no Brasil, como tem sido a história da BBC na Inglaterra, que faz produções, programas de debate aprofundados, como o ‘Panorama’ e programas jornalísticos de qualidade”. Mídia e Política

Se você não vive (ou morou) na Inglaterra ou não é da área da comunicação, provavelmente nunca ouviu falar no Panorama. Dando um pulinho no site deles, encontra-se a definição: “Current affairs programme, featuring interviews and investigative reports on a wide variety of subjects” [Programa de assuntos atuais, com entrevistas e reportagens investigativas sobre grande variedade de temas]. Bacana. Alguma semelhança com atrações brasileiras? Poucas, muito poucas…

Com o passar do tempo, a BBC soube se adequar às exigências do público. Nos últimos anos, porém, tem-se debatido a necessidade da existência da BBC em um contexto com vários canais a cabo. Atendendo a algumas críticas, a programação da emissora mudou e não tem tanta diferença com relação a uma TV comercial. A BBC Two e o Channel 4, por exemplo, são mais atrativas para o público mais jovem e a BBC acrescentou em sua grade atrações mais blockbuster.

Talvez seja isso o que falte a canais públicos brasileiros, como a TV Cultura e a TV Brasil, que “têm programas bons e debates legais, mas o desafio de mostrar o debate de uma forma atraente e gostosa”. O livro discute a influência da mídia comercial, vinda dos Estados Unidos. “Nossa identidade tem sido o olhar para o consumo”, ressalta Carolina. À noite, por exemplo, “são três novelas e um telejornal. Se você quiser uma coisa mais aprofundada, ou é de manhã ou é na Globonews”. E se compararmos os impressos que circulam em importantes metrópoles desses dois países, a situação é bastante distinta. Na Inglaterra, 10 jornais circulam apenas em Londres. Em São Paulo, são dois os de maior peso.

Parênteses para The Newsroom
Quem não conhece, a HBO está exibindo a segunda temporada da série The Newsroom, que retrata o cotidiano de uma equipe de jornalistas da emissora fictícia a cabo ACN. Com a mudança nos rumos do noticiário, após a chegada de uma nova produtora executiva, a proposta deixa de ser “fazer boa TV”, para fazer jornalismo. “Aquilo é específico nesse ponto, porque é um programa jornalístico de qualidade. Os cidadãos europeus, que sabem debater, são mais informados em relação ao cidadão médio americano. A informação nos EUA é mais básica e não tão sofisticada”, avalia Carolina.

Regulação da mídia
A discussão sobre a regulação da mídia teve um papel importante na Inglaterra e culminou com a criação da Ofcom (Office of Communication). Entre os temas debatidos estavam a concentração dos veículos, o investimento em rádio comunitária e até que ponto se deve ter regulação de conteúdo. Carolina defende que deve haver “o debate da regulação para fins de interesse público”.

Desde a Constituição de 1988, houve melhora na discussão sobre a mídia brasileira, segundo Carolina, que acredita que a internet criou uma perspectiva positiva. “Vimos o seu potencial nos protestos, no sentido de ser uma blogosfera e várias vozes atuantes. Discuto a noção da concentração da mídia no Brasil e o papel ambíguo que a TV Globo teve na redemocratização. O que se espera é que ela se torne mais democrática. Isso aconteceu um pouco, já que antes se falava em vândalos e depois, mudou o posicionamento [em relação aos protestos que aconteceram em junho no Brasil]”.

Ficou interessado no assunto? Quer ser como um europeu, que sabe debater e se aprofundar nas discussões? Então, fica a dica da leitura do “Mídia e Política na América Latina”, lançamento da Editora Civilização Brasileira. Antes dessa obra, Carolina Matos publicou “Jornalismo e Política Democrática no Brasil”, pela Publifolha. Boa leitura!

Veja uma das cenas da série The Newsroom, que mostra o jogo de interesses na imprensa: 

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