Gentil olhar sorridente

Os negros fios de cabelo são finos e lisos. Talvez por praticidade ou para se adaptar ao calor, também são curtos. Eles estão sempre muito bem cuidados, mostrando a preocupação da mulher de cerca de cinquenta anos com sua aparência. A franja, por sua vez, parece atrapalhar quando cai sobre os olhos, que explicitam sua descendência oriental.

Pequenos, os pretos olhos aparentam estar falando. Eles são alegres, certamente riem. A senhora tem uma aparência feliz e expressa isso através de seu sorriso. Os dentes são pequenos, proporcionais à boca e aos finos lábios. A pele bem cuidada e lisa se assemelha a de uma boneca japonesa de porcelana.

Nos braços, ela carrega – como se fossem seus entes queridos – cerca de dois livros e uma pasta incolor de plástico. Talvez seja professora ou simplesmente esteja fazendo um curso. O fato é que ela parece adorar o material que traz consigo, assim como tudo o que faz na vida.

Além disso, ela leva uma pequena bolsa preta a tiracolo. Deve estar leve, já que não parece ter dificuldades para carregá-la. Ou talvez esteja pesada, mas a senhora é bastante forte e não deixa transparecer os problemas que enfrenta. Os sapatos pretos combinam com a bolsa. Eles ajudam a fazer com que a baixa japonesa ganhe notoriedade. Sem o salto da plataforma, ela não seria a mesma.

Nos braços, as pulseiras prateadas caem sutilmente e combinam com o relógio que brilha quando os raios de sol refletem. Os poucos ornamentos mostram que a mulher é seletiva e sabe exatamente o que quer.

A japonesa deve contrariar a maior parte de seus contemporâneos, já que fala bastante. Ela é articulada, conversa com sua amiga e a ouve atentamente. Mais ouve que fala. Durante o diálogo, fala baixo, olha para o chão e ri discretamente. Ela deve ser mãe, já que a figura materna é sempre uma boa ouvinte e conselheira.

O figurino cai perfeitamente em seu magro corpo. Ela se arruma delicadamente. Não chama a atenção com roupas extravagantes, mas também não passa despercebida. A roupa é simples, porém ressalta o jeito meigo da mulher.

Ela veste blusa de manga branca, como quem quer tranquilidade para se recuperar da correria do cotidiano. A calça jeans azul oferece um conforto maior para a senhora que, como muitas outras, adaptou-se às condições do capitalismo e trabalha fora de casa, estressa-se, pega ônibus e tem diversas preocupações, todas camufladas por um gentil sorriso.

Troque seu lixo por… Maquiagem, produtos de limpeza e até cadeira de rodas!

Sabia que se você juntar alguns produtos que iriam para o lixo pode fazer trocas interessantes para você e para o meio ambiente? Cada vez mais, existe a preocupação, para dar um destino mais apropriado aos restos que produzimos ao longo do dia. Só em São Paulo são produzidas, em média, 18 toneladas de lixo por dia! É muita coisa e a maior parte ainda vai para aterros. Lembrando que a Política Nacional de Resíduos Sólidos prevê a desativação de aterros em 2014.

Bom, vamos, então, aos produtos que você pode juntar e trocar por outros. Se você toma muito refrigerante de latinha, pode passar a guardar os anéis. A concessionária CRR Via-Oeste tem a campanha chamada ‘Lacre Solidário’, em que anéis de latinhas podem ser trocados por cadeiras de rodas. São necessárias 140 garrafas pet cheias para barganhar. Ok, onde você vai colocar tanta pet?

cadeiraRealmente, dentro de casa, fica um pouco complicado, mas você pode levar algumas garrafas para instituições que fazem campanhas, visando as cadeiras de rodas do ‘Lacre Solidário’. Em Sorocaba, por exemplo, a Creche Especial Maria Claro pediu ajuda da população para juntar as 140 garrafas pet. Quando todas estiverem cheias, é muito fácil: a troca pode ser feita em postos de pedágio ou na sede da CRR, no km 22 da Rodovia Castello Branco, na região de Barueri.

Outra campanha é a ‘Junte Óleo’, em que se troca uma garrafa pet cheia de óleo de cozinha por duas barras de sabão ecológico. O óleo de cozinha é recolhido e encaminhado pelo Instituto Triângulo para reciclagem. Para guardar o óleo de cozinha da panela e não jogá-lo pelo ralo é fácil:

1- Espere o óleo esfriar na panela;

2- Com a ajuda de um funil, despeje o óleo diretamente na garrafa PET;

3- Em seguida feche a garrafa PET com a tampa, assim ela não exala nenhum tipo de
odor e a garrafa pode ser guardada em qualquer local da cozinha sem atrair insetos,
ratos ou baratas;

4- Com um guardanapo de papel, limpe a panela para depois lavá-la. Repita o procedimento com funil e coloque este guardanapo no lixo orgânico.

O óleo de cozinha é altamente poluente, contamina água, solos e facilita enchentes. Enchentes? Sim, o óleo tem a capacidade de impermeabilizar o solo, dificultando o escoamento da água das chuvas. Se você jogar, pelo ralo da pia da cozinha, muitas vezes o óleo pode ficar retido na tubulação, atraindo animais como ratos e baratas. Nos rios, por exemplo, ele forma uma camada impermeabilizante na superfície que impede a passagem da luz do sol, comprometendo o oxigênio e, consequentemente, causando a morte dos peixes e da vegetação aquática. Para saber onde fica o ponto de troca mais perto de sua casa, acesse o site do projeto.

batonsSe você quer trocar seu lixo por maquiagem também pode! Se você é homem, continue lendo e incentive sua mãe, namorada, esposa, irmã ou amigas. A MAC tem um programa chamado ‘Back to MAC’, em que você leva seis embalagens de produtos da empresa de cosméticos e troca por um batom! A empresa se compromete a reciclar as embalagens e a partir da matéria prima fazer novas embalagens.

Gostou? Sabe de mais programas desse tipo em que você troca lixo por produtos? Então, mande suas dicas para nós e compartilhe essa ideia sustentável!

Prestíssimo* paulistano

Passa vida, vida passa, passa tempo, tempo passa e espere: seis horas acordar, seis e cinco despertar, sete horas trabalhar, trabalho, trabalho, trabalho:

– Alô? Sim, reunião em cinco minutos, ok.

Corre, corre, reunião em cinco minutos, cinco minutos! Que digo!? C – I – N – C – O minutos?! Não acabei o projeto! Corre, corre, tempo passa, corre, corre, vida passa. PARE! Não encontro nem aqui e nem ali, procurar, procurar, PROCURAR: escrivaninha, corredor, onde está? Onde anda a liberdade? Cadê ela? Está aí, andando, caminhando, fugindo de mim. Ah, se eu pudesse conquistá-la, ah, se eu pudesse! Com certeza, proclamaria a independência do horário, da correria, dos constantes cinco minutos. Oh, cinco minutos, meu Deus! Agora são quatro: acabar o projeto, acaba, acaba, acaba, não acaba… Acabou! Corre, anda:

– Elevador! Sala de reunião, por favor. Obrigada!

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Corredor lotado, anda logo, não para, vai, vai, v-a-i… Ah, que alívio, cheguei! Acabou, terminou, projeto aprovado. Treze horas, pegar as crianças. Que trânsito, BIBI, liberdade, independência, que caos, CHEGA! Ah, eu não aguento, hora de almoçar. Almoçar?! Isso aqui está mais para engolir, então engole logo porque são quinze horas. Mercado, compras, banco, lavanderia, trabalho, trabalho, trabalho, trânsito, que inferno! Que rapidez, 16, 17, 18, 19, ah, finalmente, 22 horas!

“Nossa, NADA, não fiz nada hoje, o dia não rendeu!” Vinte e duas horas, dormir, mas e aquele projeto? Pensa, pensa, pensa no sonho. Só pode ser pesadelo.

Bip-bip-bip-bip, passa vida, vida passa, passa tempo, tempo passa e espere: seis horas acordar. De novo? Mas passou tão rápido! Nem deu para descansar. Ah, chega de enrolar que hoje o dia é longo.

NÃÃOOO, assim não dá, quero minha liberdade, será que vou demorar a encontrar? Creio ter encontrado, no atestado de óbito: infarto do miocárdio. Apenas mais uma vítima, mas não temos tempo, às sete explode em multidão, todos correm para São Paulo crescer. Então, vão bora, vão bora, olha a hora, vão bora, vão bora.

*Andamento musical muito rápido, com toda a velocidade e presteza. 

Afasta de mim esse cálice

Aprecio muito o trabalho de Chico Buarque, Caetano Veloso, Gilberto Gil e Milton Nascimento, assim como o que conheço de suas lutas políticas contra situações específicas da história do país.

Exatamente: situações históricas. A história da ditadura militar brasileira está diretamente ligada a episódios que envolveram esses artistas. Caetano, por exemplo, foi exilado na Inglaterra, e Chico, na Itália. Se esses dados não forem registrados, irão se perder e, com isso, a história do Brasil também será esquecida.

Em 1973, Chico Buarque e Gilberto Gil participaram de um festival de música, no Anhembi, em São Paulo. Cantaram ‘Cálice’ e Chico teve o microfone desligado. No final da música, o carioca expressou sua indignação: “Estão me aporrinhando muito. Esse negócio de desligar o som não estava no programa. Claro, estava no programa que eu não posso cantar a música nem ‘Anna de Amsterdam’. Não vou cantar nenhuma das duas. Mas desligar o som não precisava não”.

Na canção, a palavra ‘cálice’ é repetida frequentemente, com a intenção de adotar o sentido de ‘cale-se’, referindo-se, portanto, à censura imposta pelos ditadores. São cantadas frases como ‘tanta mentira, tanta força bruta’ e ‘como é difícil acordar calado, se na calada da noite eu me dano’.

Agora, surpreendentemente, os homens que foram calados que querem calar. Chico escreveu para ‘O Globo’ texto em 16 de outubro intitulado ‘Penso eu’, defendendo direito do ‘Rei’ Roberto Carlos de preservar sua vida pessoal e se colocando contra biografias não-autorizadas. Além disso, Chico lamentou ‘pelo autor [Paulo Cesar de Araújo], que diz ter empenhado 15 anos de sua vida em pesquisas e entrevistas com não sei quantas pessoas, inclusive eu. Só que ele nunca me entrevistou’.

No dia seguinte, ‘O Globo’ publicou ‘Chico Buarque pede desculpas a biógrafo de Roberto Carlos’. No texto, há uma foto que comprova o encontro deles e um link que direciona o leitor para uma página com o registro do encontro em vídeo. Só por isso, já senti vergonha por Chico Buarque. Aliás, eu estaria com vergonha até agora.

Por que não biografar? Por que não registrar os melhores momentos da vida de uma pessoa pública? E até os piores, afinal, todos passamos por dificuldades em alguma fase da vida. Por que tentar esquecer? Além das obras, claro, é pela biografia que determinado artista fica imortalizado. Se houvesse um livro com a compilação de dados sobre Chico Buarque, gerações futuras poderiam conhecer, com muito mais facilidade, como foi sua vida, qual sua causa e até mesmo a história de suas composições. ‘Cálice’ ou ‘Apesar de você’ não teriam sentido escritas no Brasil de hoje, mas há trinta, quarenta anos tinham mais que sentido, carregavam lutas e indignação contra o regime vigente.

No domingo, o Fantástico, da TV Globo, veiculou uma entrevista de Renata Vasconcellos com Roberto Carlos. O cantor da Jovem Guarda afirmou que pretende escrever a própria biografia. Não sou a favor de autobiografias. As pessoas tentam amenizar fatos negativos de suas vidas ou simplesmente passam uma borracha nos piores momentos.

Tampouco sou a favor de biografar pessoas que não tenham um legado ou que não tenham contribuído de alguma forma para a sociedade. Sou totalmente contra biografias meramente mercadológicas. Não pretendo desmerecer o trabalho de ninguém, porém será que o Justin Bieber, com menos de 20 anos, merecia uma biografia? Ou Adele? Sou fã da cantora britânica, li sua biografia (ao contrário da do Bieber), mas não gostei. Por mais incríveis que suas histórias pareçam, eles são muito jovens e ainda têm muitas páginas em branco para preencher. Biografias deveriam narrar vidas memoráveis.

Aliás, memorável é a carta que Tom Jobim escreveu a Chico Buarque, em outubro de 1989. (Tom, inclusive, foi muito bem biografado por Sérgio Cabral – o pai do governador do Rio). Manuscrita, a carta começa:

Chico Buarque meu herói nacional
Chico Buarque gênio da raça
Chico Buarque salvação do Brasil

carta ao chico

E em certo ponto enumera: “Chico também não evitou os assuntos escabrosos, sangue, tortura, derrame, hemorragia… Houve um momento em que temi pela tua sorte e te falei, mas creio que o pior já passou”.

Quem diria que aquele Chico, que teve o microfone desligado e tanto lutou contra a censura, quisesse prender os punhos de autores de biografias. Pai, afasta de mim esse cale-se.

A história da ‘Amora’ de Renato Teixeira

Renato Teixeira escrevia jingles nos joelhos, de última hora. “Ele tem histórias magníficas de que o cliente ia chegar em cinco minutos e ele não tinha feito o jingle. Aí ele entrava em uma salinha e em três minutos escrevia. Vinha, mostrava para o cara e o cara chorava. Ninguém acreditava que ele conseguia fazer essas coisas”, conta o filho de Renato, Chico Teixeira.

Algumas composições eram tão boas que Renato deixava de lado para usar em seus shows com o Grupo Água e brincava com os colegas: “Não vou dar para a empresa não, muda que isso aí é meu. Isso é bonito, nós vamos cantar no show”. Uma das músicas mais famosas de Renato é fruto de um jingle. Amora foi feita inicialmente para uma campanha publicitária da fábrica de sorvetes Kibon, mas Renato gostou do resultado e preferiu fazer outro jingle para a empresa.

Depois da curva da estrada
Tem um pé de araçá
Sinto vir água nos olhos
Toda vez que passo lá

Sinto o coração flechado
Cercado de solidão
Penso que deve ser doce
A fruta do coração

Vou contar para o seu pai
Que você namora
Vou contar pra sua mãe
Que você me ignora

Vou pintar a minha boca
Do vermelho da amora
Que nasce lá no quintal
Da casa onde você mora

A música Amora fez sucesso em novelas da Rede Globo. Fez parte, por exemplo, da trilha sonora da segunda versão de Cabocla, um dos grandes sucessos de audiência do horário das 18 horas, ficando atrás apenas de Alma Gêmea (julho de 2005 a março de 2006) e Chocolate com Pimenta (setembro de 2003 a maio de 2004). Amora também estava entre as canções da primeira versão de Cabocla, exibida em 1979.

“A trilha sonora nacional da novela traz músicas sertanejas e modas de viola, (…) estão no repertório Rolando Boldrin, Teodoro e Sampaio, Renato Teixeira, Sérgio Reis, além de Caetano Veloso, Flávio Venturini, Ivan Lins e Milton Nascimento”.

Está aí uma obra-prima que nasceu graças a um jingle! Não tem como ouvir e não cantar junto, não é mesmo? Eu cantei, cante você também!

Piano, verbo transitivo direto

Piano, verbo transitivo direto. Não, meu caro leitor, não te confundas com o substantivo piano, usado para designar o instrumento musical com 88 teclas, feito com cordas percutidas por martelos revestidos de feltro. Piano é a palavra mais doce, mais afetuosa e delicada para expressar o sentimento mais belo que existe.

Self Portrait #1 by Renoir.jpgSe alguém olhar nos teus olhos e disser: ‘Piano’, não estranhes. Sinta-te feliz e usufruas o momento, como se fosse o mais importante de tua vida. Não é todo dia que te dirão ‘piano’, por isso, quando o fizerem: deleita-te. Há muito tempo não me dizem palavra tão doce, tão afetuosa e agradável aos ouvidos e ao espírito. Não me queixo, nem lamento. Apenas nobres de alma conseguem usar a palavra em seu significado mais puro.

A lenda é tão antiga e há várias versões, mas o que dizem é que a expressão era usada por um senhor de um povoado distante. Senhor, aliás, bastante inteligente, como poucos se viu. Havia quem desejasse seu saber. Tentaram roubar-lhe a casa, sequestrar os filhos, porém como a inteligência não é algo que se possa tirar, todas as tentativas foram frustradas. Era um físico e, como físico, era racional. Vivia a pensar. Vivia a ensinar. Vivia a aprender.

Aprendeu que afetos devem ser expressados e encontrou a sua maneira de fazê-lo. ‘Eu te amo’ era muito comum, usual, banal. Estava na boca de todos, estava em línguas estranhas, era dita em povos distantes, em povos desconhecidos. Além disso, ele tinha medo, talvez vergonha de falar ‘eu te amo’. Encontrou palavra melhor, palavra que só ele conhecia o valor, palavra que para ele tinha um significado muito maior e mais intenso do que o usual ‘eu te amo’.

Quando já velhinho, com os cabelos grisalhos e os netos crescidos, o físico estava em seu leito de morte. Os entes queridos tentaram ajudá-lo de toda a forma, chamaram o padre, o curandeiro, qualquer um que pudesse contribuir. Quando se viu, era tarde, o último sopro de vida levou o velhinho embora. O ‘eu te amo’ ficou entalado na garganta de quem tentava salvar o senhor do sono eterno. Naquele momento ficou o desejo e a vontade de gritar ‘piano’.

Memórias de um aprendizado

Algum tempo hesitei se devia abrir minhas memórias pelo princípio ou pelo fim, isto é, se poria em primeiro lugar o meu nascimento ou a minha morte. Lembrei que, como já bem disse Brás Cubas, é bastante vulgar começar um relato pelo nascimento. Para não copiá-lo e arrumar encrencas com um defunto autor, decidi começar pelo momento em que aprendi a escrever, por minha entrada na vida escolar. Nada mais justo que iniciar estas linhas contando minhas primeiras experiências com a escrita e com a leitura. Afinal, sem a língua portuguesa, eu não seria a mesma: não me comunicaria e provavelmente estas linhas jamais seriam escritas.

Claude_Monet_-_Springtime_-_Walters_3711Dito isto, voltemos ao ano de 1900. Na primeira segunda-feira do mês de fevereiro, acordei às 6 horas, inacreditavelmente sem despertador tocando, pai ou mãe chamando. Um acordar espontâneo. Talvez fosse a ansiedade, a vontade de conhecer novas situações, novos desafios. Com quatro anos, tudo é novo, tudo é divertido. Acresce que fazia sol, um dia lindo, céu azul, pássaros cantando, parece que aquela manhã acompanhava o espírito alegre da menina. Abri os olhos e pensei: “Hoje é o grande dia”. Com a curiosidade inocente de uma criança, pensava: “Como será que é? O que farei lá?”. Levantei da cama, saí do quarto e fui com os pés descalços em direção à cozinha encontrar com meus genitores. Lá estão eles, como eram jovens, os cabelos pretos ainda nem imaginavam que o tempo os embranqueceria. Minha mãe preparava o café da manhã: esquentava o leite para fazer o achocolatado. Na mesa da área de serviço, meu pai encapava com um plástico azul os livros remanescentes que ainda não estavam prontos.

O tempo apagou detalhes mais precisos. Já me vejo no colégio. No imenso – digo imenso, pois era uma criança e para elas, tudo no mundo dos adultos parece demasiadamente grande – portão de entrada verde, um guarda recepcionava os novos alunos. Com chapéu na cabeça, ele se apresentou: Noé. Na pureza do pensamento, logo associei o nome ao Papai Noel. Adorei o Seu Noé. Como era o primeiro dia, meus pais puderam me acompanhar até a sala de aula. Era um espaço grande, várias crianças já estavam sentadas, aguardando o início do ano letivo para o Jardim II. A professora Luciana e suas duas ajudantes me receberam. Meus pais tinham que ir embora. Não achei que fosse daquela maneira. A imaginação me dizia que os pais ficariam no fundo da sala acompanhando e observando tudo. Não repares, leitor, é ingenuidade de criança. Mas não rias, pois esqueces que também foste criança e que tiveste pensamentos semelhantes. Confesso que as lágrimas começaram a cair de meus negros olhos. Meus pais partiram, deixando o consolo do retorno ao final da manhã.

Logo o choro se transformou em um sorriso simpático. Não ouso dizer belo sorriso, pois aos quatro anos, os dentes de leite caem e deixam espaços para o nascimento de seus substitutos. Simpático cai melhor. Fiz amigas: a primeira foi Karla, com K. Até hoje, quando uso a letra “k” lembro dela. Não que tenhamos conversado sobre letras no primeiro dia. Não, pintamos, brincamos com lápis, canetinhas coloridas, giz de cera. Daí para o caderno de caligrafia foi rapidinho.

Sempre quis estudar naquele colégio, antes mesmo de saber que o lugar era uma escola. Da janela do carro, olhava aquele muro alto e as árvores que o cercavam e ficava fascinada. Toda vez que passava por lá, o intrigante muro silenciosamente me fitava e escondia a realidade das casas beges que ocupavam todo o quarteirão. Eu perguntava:

– O que é isso, mãe?

– É uma escola. – respondia ela.

O que era uma escola eu não sabia. A única certeza que eu tinha era que aquele local seria importante para meu desenvolvimento. Este é o início de uma confissão de amor que resgata um momento inesquecível de minha vida. O resto? Pergunta o leitor curioso. O resto não vou narrar agora, quero saborear esta minha primeira experiência com o aprendizado.