Afasta de mim esse cálice

Aprecio muito o trabalho de Chico Buarque, Caetano Veloso, Gilberto Gil e Milton Nascimento, assim como o que conheço de suas lutas políticas contra situações específicas da história do país.

Exatamente: situações históricas. A história da ditadura militar brasileira está diretamente ligada a episódios que envolveram esses artistas. Caetano, por exemplo, foi exilado na Inglaterra, e Chico, na Itália. Se esses dados não forem registrados, irão se perder e, com isso, a história do Brasil também será esquecida.

Em 1973, Chico Buarque e Gilberto Gil participaram de um festival de música, no Anhembi, em São Paulo. Cantaram ‘Cálice’ e Chico teve o microfone desligado. No final da música, o carioca expressou sua indignação: “Estão me aporrinhando muito. Esse negócio de desligar o som não estava no programa. Claro, estava no programa que eu não posso cantar a música nem ‘Anna de Amsterdam’. Não vou cantar nenhuma das duas. Mas desligar o som não precisava não”.

Na canção, a palavra ‘cálice’ é repetida frequentemente, com a intenção de adotar o sentido de ‘cale-se’, referindo-se, portanto, à censura imposta pelos ditadores. São cantadas frases como ‘tanta mentira, tanta força bruta’ e ‘como é difícil acordar calado, se na calada da noite eu me dano’.

Agora, surpreendentemente, os homens que foram calados que querem calar. Chico escreveu para ‘O Globo’ texto em 16 de outubro intitulado ‘Penso eu’, defendendo direito do ‘Rei’ Roberto Carlos de preservar sua vida pessoal e se colocando contra biografias não-autorizadas. Além disso, Chico lamentou ‘pelo autor [Paulo Cesar de Araújo], que diz ter empenhado 15 anos de sua vida em pesquisas e entrevistas com não sei quantas pessoas, inclusive eu. Só que ele nunca me entrevistou’.

No dia seguinte, ‘O Globo’ publicou ‘Chico Buarque pede desculpas a biógrafo de Roberto Carlos’. No texto, há uma foto que comprova o encontro deles e um link que direciona o leitor para uma página com o registro do encontro em vídeo. Só por isso, já senti vergonha por Chico Buarque. Aliás, eu estaria com vergonha até agora.

Por que não biografar? Por que não registrar os melhores momentos da vida de uma pessoa pública? E até os piores, afinal, todos passamos por dificuldades em alguma fase da vida. Por que tentar esquecer? Além das obras, claro, é pela biografia que determinado artista fica imortalizado. Se houvesse um livro com a compilação de dados sobre Chico Buarque, gerações futuras poderiam conhecer, com muito mais facilidade, como foi sua vida, qual sua causa e até mesmo a história de suas composições. ‘Cálice’ ou ‘Apesar de você’ não teriam sentido escritas no Brasil de hoje, mas há trinta, quarenta anos tinham mais que sentido, carregavam lutas e indignação contra o regime vigente.

No domingo, o Fantástico, da TV Globo, veiculou uma entrevista de Renata Vasconcellos com Roberto Carlos. O cantor da Jovem Guarda afirmou que pretende escrever a própria biografia. Não sou a favor de autobiografias. As pessoas tentam amenizar fatos negativos de suas vidas ou simplesmente passam uma borracha nos piores momentos.

Tampouco sou a favor de biografar pessoas que não tenham um legado ou que não tenham contribuído de alguma forma para a sociedade. Sou totalmente contra biografias meramente mercadológicas. Não pretendo desmerecer o trabalho de ninguém, porém será que o Justin Bieber, com menos de 20 anos, merecia uma biografia? Ou Adele? Sou fã da cantora britânica, li sua biografia (ao contrário da do Bieber), mas não gostei. Por mais incríveis que suas histórias pareçam, eles são muito jovens e ainda têm muitas páginas em branco para preencher. Biografias deveriam narrar vidas memoráveis.

Aliás, memorável é a carta que Tom Jobim escreveu a Chico Buarque, em outubro de 1989. (Tom, inclusive, foi muito bem biografado por Sérgio Cabral – o pai do governador do Rio). Manuscrita, a carta começa:

Chico Buarque meu herói nacional
Chico Buarque gênio da raça
Chico Buarque salvação do Brasil

carta ao chico

E em certo ponto enumera: “Chico também não evitou os assuntos escabrosos, sangue, tortura, derrame, hemorragia… Houve um momento em que temi pela tua sorte e te falei, mas creio que o pior já passou”.

Quem diria que aquele Chico, que teve o microfone desligado e tanto lutou contra a censura, quisesse prender os punhos de autores de biografias. Pai, afasta de mim esse cale-se.

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