Memórias de um aprendizado

Algum tempo hesitei se devia abrir minhas memórias pelo princípio ou pelo fim, isto é, se poria em primeiro lugar o meu nascimento ou a minha morte. Lembrei que, como já bem disse Brás Cubas, é bastante vulgar começar um relato pelo nascimento. Para não copiá-lo e arrumar encrencas com um defunto autor, decidi começar pelo momento em que aprendi a escrever, por minha entrada na vida escolar. Nada mais justo que iniciar estas linhas contando minhas primeiras experiências com a escrita e com a leitura. Afinal, sem a língua portuguesa, eu não seria a mesma: não me comunicaria e provavelmente estas linhas jamais seriam escritas.

Claude_Monet_-_Springtime_-_Walters_3711Dito isto, voltemos ao ano de 1900. Na primeira segunda-feira do mês de fevereiro, acordei às 6 horas, inacreditavelmente sem despertador tocando, pai ou mãe chamando. Um acordar espontâneo. Talvez fosse a ansiedade, a vontade de conhecer novas situações, novos desafios. Com quatro anos, tudo é novo, tudo é divertido. Acresce que fazia sol, um dia lindo, céu azul, pássaros cantando, parece que aquela manhã acompanhava o espírito alegre da menina. Abri os olhos e pensei: “Hoje é o grande dia”. Com a curiosidade inocente de uma criança, pensava: “Como será que é? O que farei lá?”. Levantei da cama, saí do quarto e fui com os pés descalços em direção à cozinha encontrar com meus genitores. Lá estão eles, como eram jovens, os cabelos pretos ainda nem imaginavam que o tempo os embranqueceria. Minha mãe preparava o café da manhã: esquentava o leite para fazer o achocolatado. Na mesa da área de serviço, meu pai encapava com um plástico azul os livros remanescentes que ainda não estavam prontos.

O tempo apagou detalhes mais precisos. Já me vejo no colégio. No imenso – digo imenso, pois era uma criança e para elas, tudo no mundo dos adultos parece demasiadamente grande – portão de entrada verde, um guarda recepcionava os novos alunos. Com chapéu na cabeça, ele se apresentou: Noé. Na pureza do pensamento, logo associei o nome ao Papai Noel. Adorei o Seu Noé. Como era o primeiro dia, meus pais puderam me acompanhar até a sala de aula. Era um espaço grande, várias crianças já estavam sentadas, aguardando o início do ano letivo para o Jardim II. A professora Luciana e suas duas ajudantes me receberam. Meus pais tinham que ir embora. Não achei que fosse daquela maneira. A imaginação me dizia que os pais ficariam no fundo da sala acompanhando e observando tudo. Não repares, leitor, é ingenuidade de criança. Mas não rias, pois esqueces que também foste criança e que tiveste pensamentos semelhantes. Confesso que as lágrimas começaram a cair de meus negros olhos. Meus pais partiram, deixando o consolo do retorno ao final da manhã.

Logo o choro se transformou em um sorriso simpático. Não ouso dizer belo sorriso, pois aos quatro anos, os dentes de leite caem e deixam espaços para o nascimento de seus substitutos. Simpático cai melhor. Fiz amigas: a primeira foi Karla, com K. Até hoje, quando uso a letra “k” lembro dela. Não que tenhamos conversado sobre letras no primeiro dia. Não, pintamos, brincamos com lápis, canetinhas coloridas, giz de cera. Daí para o caderno de caligrafia foi rapidinho.

Sempre quis estudar naquele colégio, antes mesmo de saber que o lugar era uma escola. Da janela do carro, olhava aquele muro alto e as árvores que o cercavam e ficava fascinada. Toda vez que passava por lá, o intrigante muro silenciosamente me fitava e escondia a realidade das casas beges que ocupavam todo o quarteirão. Eu perguntava:

– O que é isso, mãe?

– É uma escola. – respondia ela.

O que era uma escola eu não sabia. A única certeza que eu tinha era que aquele local seria importante para meu desenvolvimento. Este é o início de uma confissão de amor que resgata um momento inesquecível de minha vida. O resto? Pergunta o leitor curioso. O resto não vou narrar agora, quero saborear esta minha primeira experiência com o aprendizado.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s