Mais médicos? Mais médicos!

Não tem como ver, ouvir e presenciar todos os relatos sobre a saúde pública no Brasil, mais especificamente em São Paulo, e não se revoltar. E não tem como deixar de discutir sobre a saúde pública, principalmente com a proposta do governo de trazer médicos do exterior.

médicoDurante um ano participei de um projeto de uma rádio de rede nacional que ia a bairros afastados de São Paulo para conversar com moradores e saber quais eram os problemas das regiões. Muitas, inúmeras pessoas reclamavam sobre a demora para agendar uma consulta ou sobre a falta de remédios. Algumas choravam, levavam cópias de receitas e falavam sobre casos de pessoas que eram chamadas para consulta, quando já não adiantava mais: tinha partido. Era impossível não se emocionar.

Lembro de um relato de uma mulher, que disse que os médicos não estavam indo ao hospital, pois tinham medo de ser assaltados. No estacionamento do centro de saúde não havia segurança alguma e os carros dos profissionais eram furtados constantemente. Os médicos não têm condições de trabalho adequadas, a começar pelo estacionamento. No centro cirúrgico, então, a situação é muito pior.

Não é que não haja hospitais de qualidade. Há, porém, são a minoria. No Rio de Janeiro foi inaugurado o Instituto do Cérebro com equipamentos de tecnologia de ponta. O Hospital do Coração, em São Paulo, é referência, mas quem disse que é fácil conseguir uma consulta por lá? Ou se você estiver enfartando será levado para lá? Negativo.

Passei por uma situação na pele. O SAMU, Serviço de Atendimento Móvel de Urgência – vejam bem: URGÊNCIA -, demorou 40 minutos em um caso de enfarto do miocárdio. Qual a urgência deles? Ao telefone, o bombeiro dava instruções. Desesperada, eu as seguia, mas já sabia que não adiantaria. Respiração boca a boca e massagem cardíaca. Tenho até hoje, a contagem rítmica que o bombeiro fazia: “um, dois, três, quatro, não para, Renata”. Não parei, mas o coração já tinha parado há muito tempo.

No dia 30 de julho, o Jornal da CBN – 2ª edição veiculou uma entrevista com o Ministro da Saúde, Alexandre Padilha. O âncora Roberto Nonato foi brilhante e fez ótimas perguntas. Sobre a presença de médicos em locais sem a mínima infraestrutura necessária, Padilha ressaltou que ter os profissionais nos postos e hospitais faz toda a diferença. Perspicaz, Nonato rebateu, citando entidades médicas: “Além de mais médicos é necessário também estrutura, ter leito, ter papel para receita e que em muitas cidades e nas periferias do Brasil a gente não têm essas condições mínimas de atendimento. Agora há pouco, a reportagem mostrou que em Brasília o maior hospital fechou o centro cirúrgico  por causa de más condições, além da falta de profissional. Nós ouvimos uma paciente, que disse que o marido não foi internado, porque não tem leito e nem tem vaga na UTI. E hoje de manhã este centro cirúrgico estava sem água”. E agora, ministro? “Sei que um médico que fica ao lado do paciente faz a diferença em todo o momento”. “Mas como ele resolveria se ele não tiver leito, Ministro?”, questionou o radialista. Com lábia, Padilha desconversou. Aliás, interpelado se o Ministro faria tratamento longo no SUS, ele respondeu que não tem plano de saúde e que o atendimento público tem que avançar muito.

E o que dizer de hospitais que são considerados referência e têm médicos que burlam as normas? É o que acontece com o Hospital Maternidade Leonor Mendes de Barros, na zona leste de São Paulo. O SBT Brasil exibiu com exclusividade a série “Saúde em agonia”, mostrando os “médicos-fantasmas”, profissionais que ficavam poucos minutos no trabalho, apenas para bater o ponto. Logo depois, os doutores iam embora. Eles nem mesmo estacionam os carros na garagem, para, desta forma, escapar do controle mais rígido dos seguranças – que anotam horários de entrada e saída. Os residentes que atendem os pacientes se comunicam com os médicos por mensagens de texto via celular para saber qual deve ser o procedimento em situações mais delicadas. O pior é saber que sua vida pode estar nas mãos de pessoas que estudaram, mas não estão preparadas para casos críticos.

Pensando em quadros como este, será que a vinda de profissionais do exterior não seria positiva? Afinal, eles não estariam roubando o lugar de profissionais competentes e honestos, apenas estariam cobrindo um buraco, uma falha do sistema. Por que não mais médicos? Por que não mais investimento? Por que não mais urgência em casos que realmente requerem agilidade? Por que não mais comprometimento? Por que não?

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