E o jornalismo?

A cada dia que passa, está mais difícil ver o que acontece e não dizer nada.

O jornalismo brasileiro começou perdendo na quinta-feira, dia 1º de agosto de 2013. Dia triste. Isso porque a equipe da Bradesco Esportes FM – do Grupo Bandeirantes – foi demitida um dia antes do comentarista Mauro Beting, da editora Adriana Cury e do locutor Walker Blaz terem sido dispensados da Rádio Bandeirantes por “cortes de gastos”. Não só por isso – nesse mesmo dia, a Editora Abril abriu mão de 150 funcionários e encerrou quatro títulos: Alfa, Lola, Gloss e Bravo!.

No mesmo dia em que tudo isso aconteceu, alguém tentou ser o ~engraçadão da turma~ e, além de falhar miseravelmente, matou um pouquinho mais o ofício do jornalismo no Brasil.

A meu ver, o caso maiMicrofones preocupante é o da equipe da Bradesco Esportes FM. A rádio é muito nova – foi fundada em maio de 2012, ou seja, tem pouco mais de um ano – e já destruiu tudo aquilo que pregou como objetivo, os quais vocês podem ler aqui (grifo especial para o parágrafo-lenda sobre a Copa e as Olimpíadas). É triste ver que algo tão recente seja desfeito dessa forma. É complicado acreditar que os envolvidos tenham tido a expectativa do resultado rápido em um veículo como o rádio, que demora para ter seu público formado, sua rede de anunciantes feita, e por aí vai. Que tipo de planejamento é esse?

O caso da Editora Abril é algo que já se esperava que acontecesse – há algumas semanas, surgiram boatos de que a empresa tolheria dez títulos, e não quatro. Se com esses quatro já foram 150, imaginem com dez…

Nunca nem peguei na mão a Lola e a Gloss, e, portanto, seria irresponsável falar qualquer coisa sobre elas. Mas sobre Alfa, posso dizer algumas palavras. (Sobre a Bravo!: Ricardo Viel, um ex-colega de trabalho, assina a última capa da revista. É uma reportagem sobre José Saramago. Desejo sorte e espero que ele encontre outro espaço para escrever sobre literatura!)

Durante algum tempo, fui leitor da Alfa, criada em setembro de 2010. Era uma revista masculina bacana, que não apelava para mulher pelada (tinha uma seção de gostosas, é verdade), mas que também não se encaixava no nicho “saiba dez maneiras de obter o tanquinho de aço enquanto leva sua mulher à loucura na cama”. Ocupava um espaço, que, até onde sei, não era preenchido por nenhuma outra. A GQ, da Editora Globo-Condé Nast, só veio um ano depois.

As matérias da Alfa até que eram boas. Eles fizeram uma entrevista bacana com o Ronaldo em uma determinada edição. Pelo que lembro, existiam anunciantes, e bons – alguns eram marcas de roupas, muitas da quais caras. Mas era exatamente esse o público da revista: homens, com dinheiro, que queriam aproveitar a vida de outra forma. Sinceramente não entendo o motivo de acabar dessa forma. Pondero se a Abril é nova no mercado ou algo do tipo, pois ela bem sabe que até a Veja, que é a que mais vende hoje, operou no vermelho durante bastante tempo. Prefiro não comentar a declaração do presidente da Abril, Fábio Colletti Barbosa. Deixo-vos com este tweet:

Mas o que mais me embrulhou o estômago foi o corte de Mauro Beting da Rádio Bandeirantes. Provavelmente até o amigo que não gosta de futebol sabe quem é Mauro Beting – um cara que conseguiu levar para a TV aberta um comentário inteligente, com certa dose de humor e poeticidade e que não fica em cima do muro. Isso é extremamente complicado.

Para não me estender muito, quero lembrar só uma coisa. O pai de Mauro Beting, Joelmir Beting, baita jornalista, morreu ano passado, na madrugada do dia 29 de novembro. Ele já estava internado há um mês no Hospital Albert Einstein, em São Paulo, se tratando de uma doença autoimune, quando teve um AVC que o levou.

Quero lembrar que no dia 28 de novembro de 2012, o São Paulo enfrentava o Universidad de Chile pela Copa Sul-Americana. O resultado pouco importa, mas o comentarista da Rádio Bandeirantes naquele dia era Mauro Beting. Trabalhar com o pai em uma situação dessas não é pouca coisa, mas agora imagine você na transmissão da partida recebendo a notícia de que seu pai havia morrido.

Asseguro sem medo de errar que 99% de nós começaria a chorar compulsivamente, largaria tudo ali mesmo e sairia correndo para ir até o hospital. Em vez disso, Mauro Beting continuou lá e, ao final da transmissão, leu a seguinte carta em homenagem ao pai.

Agora eu me pergunto: com que justificativa a Rádio Bandeirantes demite um profissional como Mauro Beting, que fez o que fez, que fez o que faz até hoje? “Cortar gastos”? Esse valor é tangível? Surreal. Inacreditável. Lamentável.

O pior de tudo: conforme Flávio Gomes relata no seu texto, o filho do Mauro disse que “era o Neto ou meu pai”. Is this real life? Complicado. Mais uma vez, aspas para o Flávio: “A empresa ficou com Neto, ex-jogador, que nos últimos anos se especializou em dizer “baita”. Histriônico e engraçado, ele é legal no ar. E fora dele também, um cara simpático. Não tem culpa de nada. Assim como permanece na emissora outro ex-jogador, Denílson, que se especializou em fazer caretas e brincar com a apresentadora que tem o dobro da altura dele.”

Com tudo isso, eu não estou dizendo que Mauro Beting deveria ter emprego vitalício lá só porque fez a homenagem ao pai ou porque ele é um ótimo e preparado comentarista. Mas a Rádio Bandeirantes tinha uma dívida moral e ética com ele. Se Mauro Beting tivesse que sair, que fosse o último a apagar a luz. Aliás, como ele fez na última jornada pela rádio, relatada por ele neste belo texto no seu blog do L!.

E é assim que a mídia cava sua própria cova. Tomo para mim a pergunta de Flávio Gomes: “e o jornalismo?”

—–

Atualização: durante a tarde, Neto pediu demissão ao vivo na Rádio Bandeirantes e clamou pela volta de Mauro Beting. que foi recontratado pela emissora menos de 24h depois de sua demissão. A atitude de Neto é nobre, pois ele sabe o que Mauro Beting representa para o rádio, mas ele joga um pouco para torcida no estilão “vocês pediram, então aí vai”. O que mais me intriga é Mauro Beting ter aceitado as condições da Rádio Bandeirantes e ter voltado sem exigir o mínimo: a volta também de Adriana Cury e Walker Blaz. Parece uma atitude um pouco egoísta. E os outros? Quem lutará por eles? Na minha opinião, acabou ficando feio…

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