Camarotti, o papa e a questão do jornalismo telefônico

Depois de assistir à entrevista (boa, na minha opinião) do repórter Gerson Camarotti com o papa Francisco no Rio de Janeiro, por coincidência vi o referido jornalista falando no Estúdio i, na GloboNews, sobre como conseguiu a façanha de entrevistar o cara que hoje comanda o que é a instituição mais antiga e também das mais influentes do mundo.

camarotti-estúdio iProvavelmente muitos colegas jornalistas se fizeram a mesma pergunta: como ele conseguiu? Invadiu o local onde o papa estava hospedado tal qual um ninja e quando a segurança percebeu já era tarde demais? Ele era um dos que desesperadamente tentava tocar Francisco enquanto ele abençoava as pessoas em cadeiras de roda na Catedral Metropolitana do Rio de Janeiro e pediu a entrevista ali? É amigo do papa? Claro que não.

Um pequeno resumo do que ele disse que mais me chamou a atenção: “Foi o investimento da GloboNews, ela apostou nisso desde o início. Apostou antes do início do conclave, viajou o Brasil para conversar com os principais nomes da Igreja, já tínhamos um bom contato com o episcopado brasileiro (…) a gente se posicionando (…).”

Grifei duas coisas neste excerto: a palavra investimento e o trecho “a gente se posicionando”. Primeiro, gostaria de dizer que não enxerguei esse agradecimento dele à GloboNews como puxassaquismo barato ao chefe, mas sim de alguém que realmente se sente valorizado pela empresa e pode retribuir esse esforço (bancando as viagens) de alguma forma (a entrevista com o papa). Qual empresa tem o dinheiro ou, sejamos honestos, a vontade de ir buscar algo cuja chance de acontecer tende ao zero? Precisamos admitir que tanto o Camarotti quanto a direção do canal tiveram os COLHÕES para dizer: vamos fazer esse negócio.

O segundo ponto que eu abordarei se refere ao trecho “a gente se posicionando”. “A gente”, ele quer dizer, ele mesmo e o produtor Fellipe Awi, que o ajudou a viajar pelo Brasil e se aproximar dos bispos, cardeais e outras fontes ligadas à Igreja Católica. Eles foram vistos. Isso é de extrema importância.

Para o amigo que não é jornalista, vale o esclarecimento: boa parte das reportagens que você lê no jornal ou na internet hoje em dia são feitas pelo telefone. (Rádio e televisão, principalmente, são feitos de outra forma: você precisa da sonora/imagem, então é mais fácil mandar a pessoa ao local.) No geral, liga-se para alguém, colhe-se algumas informações, uma ajeitada aqui e ali e pronto, está feito.

Por um lado, essa prática é boa, porque poupa tempo do repórter, do fotógrafo, do motorista. Por outro lado, essa prática é ruim porque o repórter não apura direito e acaba ficando refém do que passam, correndo o risco de dar uma informação errada. Afinal, ele não está lá. Isso vale para todos os setores: economia, esporte, tragédias, música…

Detalhes como condições climáticas, o ambiente do lugar, o que as pessoas estão sentido podem ser considerados por muitos como inúteis e nem sempre serão usados na reportagem, mas essas ocasiões também servem para angariar um relacionamento com possíveis fontes, seja para aquele momento específico (e nunca mais falará com ela ou a verá) ou para algo maior. E voltamos ao Camarotti e ao Awi. E se eles não fossem conversar pessoalmente com as fontes, eles teriam conseguido essa entrevista com o papa? E se eles ficassem só no contato telefônico com as fontes teriam ido a lugar algum? Ponho minha mão no fogo para dizer que não, não iam. De jeito nenhum.

É um processo caro, lento, demorado, que requer a paciência que nem todos têm, mas que pode ser extremamente recompensador, como foi nesse caso. Imaginem os fogos que soltaram quando veio o ok para a entrevista.

É claro que existem algumas exceções. Âncoras e comentaristas considerados importantes devem ter lá seu trânsito fácil com determinado setor, mas é o 1% que não deve ser levado em consideração, pois 99% de nós têm que percorrer o caminho das pedras.

Enfim, para finalizar este já longo post: o telefone deve ser um meio de fazer jornalismo, não ser o próprio jornalismo, reduzindo-o a uma sequência de oito ou nove números. Obviamente, em certas situações, só o telefone salva. Ninguém vai a Porto Alegre entrevistar um psicólogo do esporte para uma matéria de fim de semana.

Mas o meu ponto principal é que é preciso ver o mundo, falar com pessoas olhando nos olhos – elas sabem quem você é, se podem confiar em você para falar certas coisas. Em Brasília ocorre muito isso. É preciso, como gostam de dizer os professores universitários, “sujar os sapatos”, por o pé na rua. Ficar trancafiado na redação é um jeito mais fácil e barato, porém bem menos informativo.

E se você estava em uma caverna e não viu a entrevista do repórter Gerson Camarotti com o papa Francisco, veja aí:

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